InícioNotícias e artigosTranscriação: quando um slogan não se traduz, mas se reinventa

Transcriação: quando um slogan não se traduz, mas se reinventa

Um bom texto publicitário funciona como uma piada ou uma canção: ou se sente, ou não. Traduza um slogan palavra por palavra e obtém uma frase correta que não toca ninguém. Por isso, no marketing, cada vez mais se encomenda não uma tradução, mas uma transcriação.

Tradução, localização, transcriação: qual a diferença

A tradução responde à pergunta «o que foi dito». Transmite o sentido do texto original com a máxima precisão: para instruções, contratos ou documentação técnica, isso basta. Se o manual de uma máquina de lavar roupa disser «instale numa superfície plana», o tradutor deve manter exatamente essa ideia, sem liberdades criativas.

A localização é mais abrangente. Trata-se da adaptação do produto ao mercado: moeda, unidades de medida, formatos de data, requisitos legais, cores que em algumas culturas significam alegria e noutras luto. A localização abrange tudo, desde a interface de uma aplicação até à embalagem e ao menu do site.

A transcriação (palavra formada a partir de translation e creation) responde à pergunta «o que deve o leitor sentir». O profissional capta a ideia, o tom e o efeito emocional do original e escreve o texto de novo na língua do público. Está mais próxima do trabalho de um copywriter do que do de um tradutor, por isso, nas boas agências, o tradutor e o criativo trabalham em conjunto na transcriação.

Na prática, as fronteiras são ténues. Um slogan passa frequentemente tanto pela transcriação como pela localização, enquanto a tradução comum dá conta da descrição de um produto ou de um comunicado de imprensa. Mas, se o texto depende da emoção, é necessária a transcriação.

Por que um slogan palavra por palavra não funciona

Situação típica: a marca lança uma campanha com uma frase em que joga com uma palavra de dois sentidos. A tradução literal mantém as palavras, mas perde o jogo. O leitor vê uma construção estranha, não percebe para que serve e, por isso, não a memoriza.

Há também o problema inverso. A frase pode soar normal, mas provocar associações inesperadas. Uma palavra neutra numa língua pode tornar-se vulgar, carregada de conotações religiosas ou lembrar o nome de um concorrente numa outra. O tradutor que trabalha apenas com o texto muitas vezes não repara nisso. O falante nativo repara de imediato.

Por fim, os slogans costumam ter ritmo. Uma frase curta de três palavras em inglês pode tornar-se, em português, uma oração comprida que não se consegue dizer de um só fôlego. Para a publicidade impressa, isso pode ser aceitável; para um spot de rádio ou um vídeo, é já um fracasso: o locutor atrapalha-se e o espectador não chega a ler tudo.

Trocadilhos, rima e referências culturais

O trocadilho quase não se traduz. O jogo de palavras assenta numa sonoridade concreta e num duplo sentido, e, ao transpô-lo para outra língua, sobra apenas a estrutura. Nesse caso, o transcriador não procura um equivalente, mas um novo jogo: outra palavra, outra imagem que produza um efeito semelhante. Por vezes, resulta melhor uma piada completamente diferente, mas com o mesmo benefício prometido.

A rima funciona de modo semelhante. Se o original rima, a versão portuguesa também deve soar ritmada, caso contrário o slogan perde facilidade de memorização. Para manter a rima, por vezes é preciso alterar pormenores do sentido, e isso é normal, desde que a frase final transmita a mesma promessa da marca.

As referências culturais exigem verificação própria. Uma alusão a um filme, feriado ou meme local pode ser compreendida pelo público ou soar completamente estranha. Por exemplo, se a campanha original usa a imagem da receita da avó, noutro país essa imagem pode ser lida como um convite à cozinha caseira ou, pelo contrário, como uma imagem antiquada. A tarefa do transcriador não é apenas entender a referência, mas verificar como a vai receber o leitor-alvo.

Quando a transcriação não é necessária

A transcriação é cara e demorada. Não deve ser encomendada para tudo.

Se o texto for informativo, por exemplo as características de um produto, as condições de entrega ou a descrição de funcionalidades, basta uma tradução e uma localização de qualidade. O leitor procura factos, não emoção, e a criatividade a mais só atrapalha.

Se a campanha se dirigir a um segmento técnico restrito, onde a linguagem do público é rigorosa e previsível, por exemplo engenheiros ou compradores de equipamento industrial, pode bastar uma adaptação sem reelaboração criativa.

Se o orçamento for limitado e o texto for secundário, é mais sensato fazer uma boa tradução e investir o dinheiro nos criativos principais. A transcriação justifica-se onde o slogan transporta a ideia central da marca: num outdoor, nos anúncios vídeo, nos títulos de uma landing page.

Briefing para a transcriação: o que entregar ao profissional

Quanto mais preciso for o briefing, menos revisões serão necessárias. O conjunto mínimo que vale a pena transmitir ao profissional inclui:

  • o texto original e o contexto da campanha: onde e para quem será utilizado;
  • o objetivo: o que deve fazer o leitor (comprar, memorizar, subscrever);
  • o tom e o carácter da marca, com exemplos de frases que soam «certas» e de outras que não se adequam;
  • as restrições: extensão, palavras obrigatórias (nome do produto, formulações legais), imagens proibidas;
  • a explicação dos trocadilhos ou referências, se existirem no original, e o que é importante preservar neles: o sentido, a sonoridade ou a emoção.

É útil anexar referências: anúncios locais bem-sucedidos no país de destino. Mostram melhor do que qualquer descrição o estilo esperado. Se o cliente não sabe o que é mais importante, este é o momento ideal para definir prioridades antes de começar o trabalho, e não depois de receber as primeiras versões.

Como avaliar e testar as variantes

Avaliar a transcriação pelo critério «bonito ou não» não faz sentido. São necessários critérios concretos: correspondência com o sentido do original, efeito emocional, ritmo e facilidade de pronúncia, ausência de associações indesejadas, funcionamento no suporte de destino: outdoor, vídeo, publicação nas redes sociais.

Uma boa prática é pedir ao profissional várias versões do slogan e escolher entre elas. Antes de lançar a campanha, convém testar num grupo de foco de falantes nativos ou numa pequena amostra do público. Se as variantes obtiverem avaliações muito diferentes, é sinal de que se deve voltar ao briefing, e não escolher às cegas.

Para os tradutores que estão a começar a trabalhar com publicidade, é útil uma regra: primeiro perceber o que vende o original e só depois pensar nas palavras. Para os clientes, o essencial é não exigir literalidade onde é necessária emoção e prever, desde o início, no orçamento, o tempo para criação e testes.

O serviço Translate24 liga aos projetos tradutores que trabalham com textos de marketing e ajuda a estruturar o processo, desde o briefing até à revisão final. Se precisar de transcriação de um slogan ou de uma campanha noutra língua, comece por descrever a tarefa e o objetivo, e o resto resolvemos em conjunto.

Leia também:

Precisa de uma tradução profissional? Encomende online: escolha os idiomas, carregue o ficheiro e conheça o preço em poucos minutos.

Últimas Notícias
No labirinto das línguas, a tradução automática surge como uma estrela guia, aproximando culturas, e...
Leia mais
3 anos atrás
Na era digital atual, a Internet oferece uma vasta gama de conteúdos, tornando o nosso mundo mais interligado do que nunc...
Leia mais
3 anos atrás