Um contrato raramente falha por ninguém o ter lido. Mais frequentemente, falha porque foi lido de forma errada. Uma única palavra mal traduzida pode transformar um direito numa obrigação, ou um acordo num simples desejo. Por isso, a tradução jurídica é mais valorizada do que a tradução comum: aqui, um erro custa dinheiro e não apenas reputação.
Porque é que a linguagem jurídica é uma linguagem à parte
O texto jurídico segue regras próprias. Não é escrito para ser lido depressa, mas para ser compreendido da mesma forma ao longo dos anos e em situações diversas. Daí as frases longas, as enumerações, as remissões para números de cláusulas e definições, e a repetição dos mesmos termos em vez de sinónimos.
Um tradutor comum pode tornar o texto bonito e fluido. Um tradutor jurídico tem a obrigação de preservar a sua estrutura e a sua precisão, mesmo que a frase, em português, pareça pesada. Uma «elegância» excessiva num contrato é perigosa: se no original um conceito é designado duas vezes da mesma maneira, na tradução não pode transformar-se em dois conceitos diferentes só para soar melhor.
Há ainda outra diferença: o texto jurídico está sempre ligado a um sistema jurídico concreto. O tradutor precisa de perceber que consequências tem uma formulação, e não apenas o seu significado no dicionário.
Termos sem equivalentes diretos em diferentes sistemas jurídicos
O grupo mais traiçoeiro de armadilhas é o das palavras que soam familiares mas significam outra coisa. Conceitos como «trust», «escrow», «consórcio», «indemnização por perdas e danos» ou «cláusula penal» funcionam de forma diferente consoante o país. Só podem ser traduzidos através de uma descrição ou de um equivalente adequado, e a escolha desse equivalente já é uma decisão jurídica.
Situação típica: num contrato em inglês surge um termo que, em português, soa como uma «fiança» conhecida, quando, no sistema de origem, abrange um conjunto diferente de obrigações e de consequências. Um tradutor que se limitou a escolher a palavra familiar alterou, sem dar por isso, a extensão da responsabilidade de uma das partes.
Um bom tradutor, nesta situação, não esconde o problema. Escolhe a opção mais clara, acrescenta, se necessário, uma explicação entre parênteses ou numa nota de rodapé, e regista a decisão para que esta não mude ao longo do texto.
Shall, may, must: a modalidade de que dependem as obrigações
Os verbos modais parecem pormenores, mas é neles que assenta a distribuição de direitos e obrigações. Nos contratos em inglês, «shall» indica frequentemente uma obrigação, «may» um direito e não uma obrigação, e «must» pode soar a uma exigência firme ou a uma simples constatação, consoante o contexto. Os equivalentes portugueses «dever», «ter o direito de» ou «obriga-se a» não coincidem totalmente com estas palavras.
Por exemplo, se o texto disser «The Buyer shall pay», trata-se de uma obrigação do comprador. Se for substituído por «pode pagar» ou «o pagamento é possível», a responsabilidade muda, e uma discussão sobre prazos ou montantes passa a ser uma questão de interpretação. Do mesmo modo, a passagem de «shall» para «will» não altera o sentido em alguns sistemas, mas pode enfraquecer a formulação noutros.
A regra para o cliente é simples: peça ao tradutor não apenas que traduza a modalidade, mas que verifique a sua uniformidade. Se a obrigação no início do contrato é expressa por «obriga-se a» e, no meio, por «deve», isso suscita dúvidas na outra parte e num tribunal, caso o litígio chegue até lá.
Datas, montantes, dados de identificação e uniformidade dos termos
Muitas vezes, os erros mais dispendiosos não têm que ver com a filosofia do direito, mas com os números. Dia e mês trocados numa data, um zero em falta num montante, um código de moeda mal traduzido ou um número de conta errado podem tornar impossível a execução do contrato. No formato americano, 03/04/2025 é 4 de março; no europeu, é 3 de abril. Este exemplo é conhecido de muitos, mas na prática os erros acontecem com regularidade.
A uniformidade dos termos é igualmente importante. Se «Prestador de Serviços» surge na primeira cláusula como «Contratado» e na terceira como «Fornecedor», o leitor terá de adivinhar se se trata da mesma parte ou de três papéis diferentes. O tradutor deve manter um glossário e usar um único termo ao longo de todo o documento.
Os dados de identificação são um risco à parte. Denominações de empresas, moradas e números de registo devem ser confrontados com os documentos oficiais, e não copiados de ouvido ou de memória. A transliteração de apelidos e nomes de empresas em diferentes países também exige atenção: a mesma pessoa pode estar registada de forma diferente no passaporte e nos documentos da sociedade.
Contratos bilingues: qual a versão que prevalece
Muitos contratos internacionais são assinados em duas línguas ao mesmo tempo. Por vezes, o próprio texto indica qual das versões prevalece. Se não existir tal cláusula, surge a incerteza, e as formulações controversas terão de ser interpretadas segundo as circunstâncias, o que não interessa a ninguém.
É importante compreender que uma versão traduzida, feita para facilitar a leitura, e uma versão com força jurídica são coisas diferentes. Se o contrato foi redigido em inglês e a versão portuguesa serve apenas de referência, deve dizê-lo expressamente no texto. Caso contrário, a outra parte poderá invocar a versão portuguesa como vinculativa.
Conselho prático: num documento bilingue, verifique não só o sentido geral, mas também cada cláusula quanto à numeração, às definições, às datas e aos montantes. As discrepâncias costumam esconder-se nos anexos e nas notas, que são traduzidos por último e com menos atenção.
Como escolher um tradutor e organizar a revisão
Para um texto jurídico, não basta dominar bem a língua. É preciso um tradutor que tenha trabalhado com documentação comercial e jurídica, que compreenda a estrutura de um contrato e que esteja disposto a fazer perguntas de esclarecimento. Se o profissional não pede contexto, não pergunta qual é a versão principal e não propõe um glossário, convém desconfiar.
Ao escolher, atente na experiência específica na sua área, na existência de revisão e no procedimento de controlo de qualidade. Uma tradução profissional fiável inclui normalmente a revisão por uma segunda pessoa: um especialista traduz e outro verifica. Para documentos importantes, vale a pena também acordar com o jurista da empresa os termos-chave antes de começar o trabalho.
Serviços como a Translate24, onde trabalham tradutores certificados, permitem escolher um profissional de acordo com a temática do documento. Para que o resultado seja fiável, tenha sempre à mão o original, envie de uma só vez todos os anexos, indique qual versão é considerada principal e peça que lhe devolvam não só a tradução, mas também a lista das decisões controversas.
Para os tradutores que estão a começar, a mesma lógica aponta um caminho: a tradução jurídica exige disciplina e atenção ao detalhe, mas é precisamente nela que a precisão é mais valorizada e paga.
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